Graça

O Gigante, a Favela e o Éden Caído

Brasil, país do povo com sorrisos largos, país abraçado pelo mestiço, onde os progressos estão amarrados ao suor do trabalhador. Brasil, o Gigante tão plural, tão diverso, mas ao mesmo tão maltrapido, recluso e diluído em desigualdade. Até hoje se escuta o eco das marcas da colonização. Brasil, tão grande, mas tão frágil, tão híbrido, rico e insuficiente.

Um terreno em um morro do rio de Janeiro é estimado na média de 2,5 milhões de reais, e assim percebesse que da necessidade de famílias em situação de vulnerabilidade social é construído um mercado que se passa bem longe da definição de “falido”. A favela que para o cidadão local é um abismo da problemática social se torna cartão postal para gringos. E todo problema que se encontra insolúvel pelo governo se torna mercado fantasiado de“cultura”, hoje nos tours turísticos do Rio de Janeiro já existe a opção de se visitar a Favelas como a da Rocinha, que são apresentadas como um falso orgulho do patrimônio cultural. É a elitização em cima de um mercado falido. Mas essa história de se fazer mercado em cima da necessidade das pessoas não é nova, já dizia Machado de Assis “Existem dois Brasís: o Brasil Oficial, e o Brasil Real ” nota-se que em sua citação diz-se nas entre linhas que entre ambos Brasís existe um abismo.

Dos que moram na cobertura privada da ponta do iceberg assiste-se de camarote Marcos Vinicius, menino de 14 anos, sendo morto por bala perdida na Vila do Pinheiro, Zona Norte do Rio de Janeiro, quando voltava da escola. Seu velório aconteceu em meio aos fogos da comemoração do gol do Brasil, a bandeira do qual, verde e amarelo foi invadido pelo vermelho estampado no uniforme de Marcos. Histórias interrompidas, vidas apagadas, sangue inocente derramado é cenário frequente nas favelas do Brasil da pluralidade.

Será mera coincidência todas as crises existentes na política serem as mesmas crises do meio evangélico? Falta de referência moral, corrupção desenfreada, mau gerenciamento, escândalos de desvio de dinheiro, e falta de identidade. (Não sabe pra que foi criado e qual é o seu papel). E cá estamos nós: evangélicos brasileiros, o carro forte da urna do País, levando a nossa falta de substância para as urnas do país.

Encontra-se a igreja num profundo sono paralisante chamado “pragmatismo religioso”. Evidente que se esqueceram que o silêncio dos justos propaga o grito da iniquidade dos ímpios. Esbarra-se com os bravos trabalhadores da seara abandonando seus postos para serem “revolucionários de sofá”, onde suas criticas habitam apenas no campo do idealismo, e não na esfera da realidade. Porém pecam quando se lembram que uma ideia só tem valor quando é um potencial para ser desenhada na realidade.

A resposta da Igreja para a política não é partidária, não é limitada pela inércia do conservadorismo nem pela fluidificação do neo-liberalismo. Até criou-se um título para Cristo ser esquerdista, mas o equívoco é fácil de desamarrar, a diferença é notória: no socialismo todo mundo tem igual, no Evangelho não falta nada a ninguém. É diferente.

Vive-se em tempos onde os possíveis antídotos para as mazelas da sociedade são dualistas, isso causa uma polarização no campo das ideias impedindo que um espírito de moderação habite no debate. Abre-se mão de solucionar problemas e cria-se uma guerra disputando a colonização de quem é o ditador da razão. No meio de tanta parafernália ideológica se encontra a Igreja com “I” maiúsculo exercendo aquilo que ela sabe fazer de melhor: ser sacerdócio real!

Ser sacerdócio real é a capacidade de liderar algo (e a si mesmo) através de uma visão celestial, habitando com Cristo nas regiões celestiais acima de qualquer principado e potestade. Uma visão celestial é exercer um olhar panorâmico que enxerga além de seus gostos e lutas pessoais, pois ela enxerga o coletivo.

Um visionário celestial é um inibidor de corrupção estrutural, é restaurador do sistema adâmico falido, é propagador de um sistema sustentável que não luta pelos seus próprios interesses, mas sim pelo direito do ser-humano; ele entende que não é só o filho de Deus que merece comida na mesa, porque se for pela meritocracia nem o filho merece, é pela Graça.

A Missão da Igreja ultrapassa as expectativas do papel de ser um bom cidadão, ela vai além do assistencialismo, afinal, ela carrega o benefício do Propósito Divino.

Onde se encontra a Igreja dentro da esfera política? Com os de Paulo ou com os de Apolo? Conservadores ou liberais? Não é tempo para remédios genéricos, as receitas prontas já não alimentam mais o Gigante. É preciso enxergar o debate de Cima. O exercício da democracia é fundamental para que o povo heroico e brado retumbante voltem a ecoar. Ser Igreja brasileira vai além de títulos, é entender quem somos. E quando nos perguntarem: de esquerda ou de direita? Responderemos: “para frente!”.

Por Ariane Grigoletto

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