Apologética, Devocional, Espiritualidade

Cosmovisão Cristã e eu com isso?

É muito comum existirem pessoas que fazem uma leitura do mundo de maneiras diferentes. Quando elas fazem uma interpretação diferente para uma mesma situação, elas estão refletindo a sua cosmovisão. Cosmovisão é a maneira pelo qual uma pessoa enxerga e interpreta o mundo, a maneira como enxerga a vida. É uma palavra que damos para aquilo que está no mais profundo de nosso ser, que nos permite ler as situações da vida, agindo conforme essa cosmovisão, tendo ela como a base de nossas ações. São as lentes pelas quais usamos para enxergar o mundo à nossa volta.

James W. Sire, em seu livro “Dando Nome ao Elefante” afirma que a cosmovisão é “…um compromisso, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expresso em uma história ou em um conjunto de pressuposições (suposições que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas) que sustentamos (consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da realidade, e que fornece o fundamento no qual vivemos, nos movemos e existimos”. Ou seja, é uma coisa que reside no coração, e o coração é o lugar mais profundo do ser humano, é quem ele é.

Mas por que esse assunto de cosmovisão é tão importante assim e onde isso me afeta? A razão dessa importância é porque devemos saber se a nossa cosmovisão refleti as bases bíblicas e suas implicações práticas na vida. O cristianismo é sobre toda a nossa vida, todas as esferas da nossa existência. Infelizmente, nos dias atuais vemos um número de evangélicos que tem aplicado uma extrema dicotomia em suas vidas, uma separação entre o sagrado e o secular, uma dicotomia entre o santo e o profano. E como isso acontece? Isso ocorre quando as pessoas pensam em como a sua fé se aplica as coisas espirituais, em como a sua fé se aplica a área espiritual (intangível) e eclesiástica, isso é, relacionado à igreja, mas não consegue associar e aplicar a sua fé em outros contextos como por exemplo na vida cotidiana, num local de trabalho, em seus  relacionamentos fora da igreja, etc. Elas até ouvem falar da relevância bíblica de serem cristãos fora da igreja, mas não sabem de fato o que é serem cristãos fora das quatro paredes da igreja. E isso não diz respeito meramente apenas a uma questão de conduta e ético, mas repensar tudo aquilo que fazemos apoiado numa cosmovisão cristã.

E o que seria essa cosmovisão cristã? Seria o entendimento de alguns pilares fundamentais da história da humanidade que nos ajudam a nortear as nossas vidas e as nossas interpretações da vida. A história bíblica aponta para esses pilares que são: Criação, Queda, Redenção e Consumação. Esses 4 pilares são fundamentais da cosmovisão cristã e elas mudam a forma de como entendemos algumas coisas.

Por exemplo, na criação, a forma como você enxerga a Deus afeta a forma como você enxerga o mundo. Na criação fala sobre um Deus trino criando todas as coisas que existem (Genesis 1). Fala sobre o homem criado a imagem e semelhança de Deus imago Dei com alguns de seus atributos (Genesis 2). Quando compreendemos esse fato entendemos qual deve ser a nossa consideração e postura em relação as outras pessoas e em relação a nós mesmos levando em consideração que ser imagem e semelhança de Deus significa refletir e pensar de si mesmo aquilo que convém debaixo do governo moral de Deus e as responsabilidades atribuídas por Ele.

Quando consideramos o princípio da queda e a forma como ela afetou todas as áreas da criação e contaminando com enfoque errado daquilo que Deus havia proposto, nós entendemos que as pessoas tem uma natureza pecaminosa, na raiz do seu coração (Genesis 3:11). O homem é mau e tudo que origina do seu coração, procede de forma pecaminosa. E, isso abrange tudo, todas as suas atitudes, não apenas em erros individuais, como por exemplo matar, roubar, mentir, ou entre outras coisas dessa natureza, mas também em tudo o que ela faz, seja no trabalho, no estudo e etc., e que as suas faculdades mentais, seus exercícios intelectuais podem e são afetados pelo pecado como consequência dessa condição de condenação, aprisionando sua liberdade que possuía em Deus às inclinações do pecado, tornando-o tanto responsável por ele como vítima de sua sujeira. Na queda, a forma como você enxerga o homem afeta a forma como você enxerga o mundo.

Na redenção, a forma como você enxerga o evangelho afeta a forma como você age no mundo. Quando a gente considera a redenção, estamos considerando que diante do caráter universal da queda, o homem precisa de um salvador, precisa de uma solução para o seu estado de condenação, mas não soluções humanistas, como por exemplo, praticar filantropia e fazer boas ações – uma vez que por causa da queda, o homem se tornou incapaz de se achegar a Deus por seus próprios esforços para se libertar do pecado – mas por aquilo que só Jesus Cristo pode fazer pelo ser humano (Genesis 3:15, proto-evangelho).

A redenção cristã só é percebida por meio da revelação divina,  porque é algo que ocorre fora de nós mesmos. Todo ser humano pode até ter uma noção de que o universo foi criado por um ser superior, ter uma noção de que o ser humano é mau, de que existe um vazio interior, mas ninguém pode conhecer o caminho cristão de redenção sem que o Pai celestial nos revele. E é exatamente nesse ponto que o evangelho entra em ação e revela a sua importância salvífica a nós. O homem não tem capacidade de salvar a si mesmo, essa obra pertence unicamente a Cristo (Romanos 3:23-24). A redenção veio até nós, e se chama Jesus Cristo, o Messias.

E, por fim, o futuro, que nós aguardamos esperançosos que é o que nós chamamos de consumação. O local onde depositamos toda a nossa esperança afeta a forma como enxergamos o mundo. A consumação é o pilar que nos dá o equilíbrio necessário entre a vida no mundo agora e a vida no porvir. Entre o “já” e o “ainda não”. Esse pilar nos previne de dois extremos: o pessimista demais e o otimista demais.

O pessimismo vem quando olhamos para eternidade e concluímos que não devemos mais interagir com o nosso tempo, quando não queremos saber deste mundo, então, a nossa fé fica confinada somente as atividades espirituais e nada mais. Por outro lado, o otimismo exagerado ou triunfalismo vem de um conceito totalmente equivocado da redenção. Esse extremo nos leva a depositar toda a nossa esperança na transformação de toda estrutura social por meio do engajamento da igreja, como por exemplo, em atividades filantrópicas e na política. Um outro lado negativo desse extremo otimismo está justamente na teologia da prosperidade que reivindica as bençãos do “ainda não” quando vivemos o “já”. É a famosa ausência total de sofrimento que é tão pregada por essa teologia errônea, quando na verdade, a ausência total de sofrimento só vai ocorrer na eternidade.

A consumação é a realização plena da redenção de Cristo (Apocalipse 22). Porém, isso não acontecerá nessa vida terrena e nem por meio da igreja. Jesus disse que nós somos o sal da terra, isso quer dizer que o sal tem uma função de conservar, preservar. Assim como o sal, nós somos chamados para retardar o apodrecimento da sociedade vivendo como seres que foram redimidos, mas o sal não tem o poder de transformar carne podre em carne boa. Sendo assim, não é de responsabilidade do cristão salvar este mundo e convencê-lo do pecado, mas servir como uma presença fiel e exercer um testemunho da graça de Deus, sabendo que nem tudo ou todos serão salvos. É Deus que realizará a consumação e mudar tudo por meio da segunda vinda de Cristo, não nós.

Portanto, o equilíbrio entre esses dois extremos está no discernimento correto do que “já aconteceu” e do que “ainda não” se manifestou. A consumação nos permite ter a postura correta no presente com olhos no futuro, e entre esses dois momentos da história, somos chamados como filhos de Deus para viver uma vida em santificação e perseverança num viver realista e responsável neste mundo.

A conversão do cristão representa o reconhecimento do senhorio de Jesus Cristo em todas as áreas de nossas vidas e da sociedade. A minha expectativa é que você aprenda e se torne consciente da importância de ter uma cosmovisão cristã para tudo o que você faz nessa vida. Espero que você viva uma cosmovisão cristã verdadeira sem perder de vista a perspectiva dos 4 grandes pilares da cosmovisão cristã. Deus escolheu a Bíblia para falar conosco, portanto, oro para que a Palavra de Deus ilumine seus olhos, para que através das lentes das Escrituras Sagradas, você possa enxergar todas as outras coisas.

“Eu creio no cristianismo tal como creio no Sol. Não porque apenas o vejo, mas porque através dele eu vejo todas as outras coisas.” C. S. Lewis

Por Caio Oliveira

Formado em Teologia pelo Seminário Teológico Carisma
Bacharel em Ciências Contábeis pela Faculdade Pitágoras de Ensino Superior

Ovelha na Igreja Batista Lagoinha Pedreira
Voluntário de Mídia e Comunicação na Igreja Batista Lagoinha Pedreira

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