Espiritualidade, Graça, Reforma Protestante

A TULIP mudará seu relacionamento com Deus

A cada dia que se passa, me encanto mais e mais com as doutrinas da graça. Muito mais do que apenas “doutrinas formuladas por homens”, as doutrinas da graça são bálsamo na vida daqueles que a compreendem. Elas trazem paz as inquietudes de nossa alma, dissipam as nuvens escuras da dúvida e glorificam a Deus ao invés de glorificarem o homem. Compreender os cinco pontos do calvinismo, ou TULIP, ou doutrinas da graça muda a forma como relacionamos com nosso Criador, Senhor e Salvador. Meu desejo aqui neste breve texto é que você, caro leitor, tenha uma compreensão simples e objetiva do que cada ponto significa e como isso irá alterar seu relacionamento com Deus. 

A TULIP é o acróstico formado pelas primeiras letras do nome em inglês das doutrinas: (1) Depravação total; (2) Eleição incondicional; (3) Expiação limitada; (4) Graça irresistível; e, (5) Perseverança dos santos. Todos esses pontos apontam para a ação de Deus em nos Escolher, regenerar, salvar e preservar. Mostram que a salvação não é algo que veio ou pudesse ter vindo de alguma boa obra que produzimos, mas, sim, do amor incondicional de Deus e sua graça e misericórdia. 

O primeiro ponto do calvinismo é a “depravação total”, que ensina que o homem que não foi verdadeiramente salvo é totalmente escravo de satanás e incapaz de fazer qualquer coisa para salvar-se, dependendo, portanto, da atuação de Deus, o regenerando e tornando-o capaz de dizer “sim” a mensagem do evangelho. Essa afirmação nos mostra que seria impossível alguém, sem a ação de Deus, fazer qualquer coisa para se salvar (Romanos 3.10-23). Quando eu finalmente compreendi essa verdade bíblica, consegui de maneira clara enxergar que eu não sou nada. Que sem Deus eu não posso fazer nada de bom, que tudo aquilo que eu fazia era insuficiente se não estivesse associado a obra de Cristo. Que minhas boas obras só são possíveis por que são operações de Deus em mim e não minhas operações de mim mesmo, pois toda a boa dádiva vem Dele (Tiago 1.17). Conhecer o quão mal eu sou, e como tudo aquilo de bom que eu faço só é possível por causa de Deus, me tornou mais dependente. Hoje, ao entender a depravação total, sou mais dependente de Deus, pois entendi que sem Ele, não posso fazer nada (João 15.5).

O segundo ponto é a “eleição incondicional”, que ensina que Deus escolheu antes da fundação do mundo um povo para si, baseado em sua livre e soberana vontade e não naquilo que os homens poderiam vir a fazer ou deixar de fazer. Ao compreender a eleição incondicional fui levado a uma compreensão maior da soberania de Deus e como ela se estende em todas as áreas de minha vida. Entendi também que já que minha salvação é totalmente uma ação de Deus que soberanamente me escolheu antes da fundação do mundo, antes mesmo de eu ter feito ou deixado de fazer qualquer coisa, ela é certa e segura, pois está garantida em um ser totalmente seguro, imutável e digno de confiança. Hoje vivo mais tranquilo, pois sei que nada foge das mãos do meu criador.  

O terceiro ponto é a “expiação limitada”, que ensina que o sacrifício de Jesus não foi para todas as pessoas individualmente, mas para aqueles que foram eleitos pelo Pai antes da fundação do mundo. Jesus era aquele que salvaria o seu povo dos pecados deles (Mateus 1.21). Diferente da maioria das pessoas, quando compreendi essa doutrina, não fui tomado por um sentimento de indignação contra Deus, nem achei que Ele era injusto por escolher uns e não outros, mas fui tomado por gratidão e amor por Ele. Eu entendia que todos os homens já caminhavam para o inferno, todos são totalmente depravados, entendia que se Deus resolvesse mandar todos para o inferno, Ele continuaria sendo justo e bom. Isso fez com que eu olhasse para a cruz e dissesse: “Senhor Jesus, não sei por que eu, mas te agradeço por ter me tirado de onde eu estava, obrigado pela cruz, obrigado por ter vertido seu sangue por mim, eu te amo Jesus!”.

O quarto ponto é a “graça irresistível”, que ensina que a graça de Deus não pode ser resistida pelo homem. Quando Deus resolve agir em sua vida salvadoramente, nada e nem ninguém podem impedir seu agir (Isaías (43.13). Não que Deus desconsiderasse a vontade do homem (ou violasse ela), mas Deus transforma nossa vontade, muda sua direção e a conduz para Ele. Nós que antes desejávamos o pecado, quando Deus age em nós com sua graça, passamos a desejar Ele e sua vontade. Quando compreendi isso, passei a ver o quão poderoso Deus é. Comecei a entender o questionamento de Paulo: “se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Romanos 8.31). Passei a enxerga-lo como Ele de fato é: O Todo Poderoso!

O último ponto é a “perseverança dos santos”, esse ponto nos ensina que já que a salvação é uma obra completamente de Deus e que o homem nada pode fazer para cooperar nisso, é o próprio Deus que garante e sustenta essa salvação. O homem não pode fazer nada para se manter salvo, quem garante isso é o próprio Deus. Os eleitos perseveram por que aquele que começou a boa obra em vós é fiel e justo para completa-la até ao dia de Cristo Jesus (Filipenses 1.6). Não perseveramos para mantermo-nos salvos, perseveramos porque fomos salvos. Quando entendi essa gloriosa verdade, obtive certeza da salvação. Quando entendi que o Deus Todo Poderoso que me salvou é o mesmo Deus que preserva minha salvação, descansei, tive paz, pois estava seguro, estava na sombra do onipotente e dali ninguém poderia me tirar. 

Como isso mudou meu relacionamento com Deus? Antes de entender as doutrinas da graça (TULIP), eu vivia escravizado, com medo, inseguro, como se Deus fosse um carrasco e no momento que eu pecasse iria me riscar do livro da vida. Vivia de maneira egocêntrica, como se eu fosse “o cara” por fazer boas obras. Ao compreender a TULIP, percebi que não sou nada, percebi que sem Cristo eu não posso fazer nada de bom, percebi o quão poderoso Ele é e ao mesmo tempo o quão amoroso Ele é. Hoje eu me aproximo de Deus como um filho que foi adotado em Cristo, grato por ter sido alvo de sua maravilhosa graça. Estude essas doutrinas, elas não são “coisas de homem”. Elas emanam das Escrituras, elas exaltam o caráter de Deus, elas glorificam a Deus e nos coloca em uma posição de humildade e submissão. Que Deus te abençoe. 

Por Nickson Rezende

Casado com Priscilla e pai da Alice, membro da Quarta Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte.
Bacharel em Teologia pelo Seminário Teológico Presbiteriano Reverendo Denoel Nicodemus Eller
Colaborador da página Logos com Café no Instagram.

Coordenador e professor no Instituto Reformado de Teologia e Missões

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